No pátio de uma casa na Vila Conceição, Porto Alegre.
Essa é a primeira mixtape de uma série que pretendo fazer regularmente. O tema é música francesa. Não, na verdade, o tema é isso: “ Franceses cantando em francês. Franceses cantando em inglês. Japoneses fazendo biquinho. Sotaque parisien, sotaque québécois. Crepe de Nutella. Porque nada acabou em Edith Piaf.”
Ouça, se você tem alguma afinidade com a língua, ou se pretende ter, ou simplesmente se acha BONITINHO.
“Os primeiros fregueses que entraram no Café Ideal, espalhando-se aqui e ali, eram todos homens, todos frequentadores assíduos, e nenhum tinha muito a dizer. Entre cinco e seis horas, quase não se ouvia nada no café. Os homens que entravam durante essa primeira hora não tinham esposas nem namoradas, mas cada um deles teria uma história a contar se decidisse fazê-lo, uma história sobre um acidente, uma morte, um baque ou um traço de personalidade que o tinha transformado em que ele era agora: um personagem solitário numa sala cheia de outros personagens solitários que tomavam o seu café-da-manhã sozinhos.”
(Siri Hustvedt, O encantamento de Lily Dahl)
P: E você busca, de fato, a palavra “exata” para definir essa particularidade [do indivíduo], como Flaubert fazia no passado. Você se definiria como um formalista?
R: Tenho muita reverência pela linguagem - como cada palavra soa individualmente, como ela se relaciona com outras numa frase, como ela se encadeia com a seguinte. Para mim, a linguagem tem tudo a ver com a música. Uma frase, um parágrafo, não devem ser unicamente belos. A prosa, como a música, deve ter uma direção e força comparáveis às sonatas de Beethoven e aos riffs jazzísticos de John Coltrane. Embora não aparentem, todos os meus seis livros são, de algum modo, versões de algum tipo de música. Meu primeiro romance, Uma Casa no Fim do Mundo, era rock’n’roll. As Horas tinha a ver com Schubert e Brahms. Já Ao Anoitecer estaria mais para Laurie Anderson e Brian Eno. Não sei se essa resposta faz sentido, mas cada um desses livros foi inspirado por ritmos de peças musicais.
Depois de um almoço silencioso, subi pela última vez ao topo da colina para dizer adeus a Terry. Era o dia mais quente do verão, tão quente que daria para fritar bacon em uma folha. O vento também estava quente, e eu sentia como se estivesse entrando em um secador de cabelo. O suor caía em meus olhos. Quando passei pelos portões, as mãos calejadas da nostalgia apertaram meu coração, e percebi que a gente sente falta dos tempos ruins tanto quanto dos bons, porque no fim das contas, aquilo que realmente faz falta é o próprio tempo. — Steve Toltz, Uma fração do todo
O quarto que lhes deram tinha um cheiro pesado que ela era jovem demais para reconhecer como massa para aplicar em paredes pré-fabricadas do tipo dry wall, jovem demais para achar familiar e reconfortante. — Jonathan Franzen, Liberdade
Antônio Prado, RS.

Aline, a ex-namorada
(texto originalmente publicado na Zero Hora de 26 de fevereiro de 2011)
Desde que Olívio Dutra pôs uma sunga e deu um mergulho, as águas do Lami e de Belém Novo voltaram a ser balneáveis, ao menos na maior parte do tempo. Mas isso ficava pra lá do fim do mundo. Você sabe, podemos ter um mundo bem pequeno às vezes. Eu nunca tinha pensado em seguir para além do Guarujá, embora já tivesse cogitado uma expedição até a Patagônia. Então André me ligou, isso dois anos depois de termos terminado e uns onze anos depois de Olívio Dutra ter mergulhado nas águas do Guaíba. Nesse meio tempo, quantas vezes o assunto Lami ou Belém Novo havia surgido em qualquer conversa na qual eu estivesse presente? Com tanta frequência quanto Burkina Faso, eu diria.
André não costumava ligar. Tínhamos um bocado de amigos em comum e nos víamos e conversávamos nos churrascos desses amigos, isso era tudo. Eu nunca estava com ninguém, ele tampouco. Provavelmente havíamos traumatizado um ao outro no quesito relacionamentos longos. André disse ao telefone: “Parece estranho o que eu vou dizer, tu vai achar estranho. E se a gente fosse até o Lami hoje?” E eu respondi “parece uma boa”, sem saber exatamente o que estava fazendo. Como se Lami fosse só um xis na Cidade Baixa.
Eu e André estamos dentro do carro e o carro está parado na Avenida do Lami. Há verde a perder de vista em ambos os lados da estrada, com uma casinha de tanto em tanto. Olho para a placa sobre nossas cabeças, uma grande placa com duas esculturas de garça em tamanho real penduradas logo abaixo. “Praia das Garças”, é o que está escrito.
- Isso não se parece nada com uma praia - digo ao André.
Ele responde que a placa diz “praia”, portanto não há dúvida de que seja uma praia, e eu digo que a pista de esqui de Garibaldi também se auto-denomina “pista de esqui”, embora “ladeira de borracha” pareça muito mais adequado. O carro continua no meio da rua. Não há movimento nenhum na Avenida do Lami. Então André engata a primeira, anda uns poucos metros, e entra no caminho de terra. Logo estamos passando por uma espécie de pórtico abandonado, onde há um aviso de que o ingresso será cobrado na chegada à praia. E proibido som alto. E proibido cães. E proibido usar lenha ou galhos. Seguimos adiante. Coisa estranha sentir-se viajante dentro de sua própria cidade, é o que estou pensando, enquanto percorremos essa estradinha sem fim, rodeada de mato e campo.
Uma coisa que se pode dizer é que ex-namorados não ficam constrangidos com o silêncio, simplesmente deixam de lado a necessidade social de preencher os espaços vazios. Portanto assim é nesse caminho, com o carro balançando e uma velha canção do Aerosmith no rádio, de quando a voz do Steven Tyler ainda não era bem a voz do Steven Tyler.
Mas a estrada acaba, e há realmente uma praia no fim dela. Quero dizer, primeiro um bocado de árvores e de sombra e churrasqueiras de tijolos, depois a areia escura e o sol brilhando sobre o Guaíba. Duas mulheres estão pescando e, dentro d’água, umas crianças se divertem com o pai. “Bonito”, eu digo. Sentamos em um pedaço de tronco e ficamos olhando. “Surpreendentemente bonito”.
Acho que um navio de carga está passando lá no fundo. André vira em minha direção.
- Tô pensando em sair de Porto Alegre.
Pergunto se viemos até aqui para ele me dizer isso e ele responde “só queria saber tua opinião”.
- Tu quer morar em outra cidade, tipo São Paulo, onde tudo supostamente acontece e tu pode ganhar muito mais dinheiro?
Ele ri e diz que é mais ou menos isso.
- Ai, André, tem um monte de caras nesse exato momento pensando a mesma coisa.
- Mas isso faz com que seja uma má ideia?
Não sei mesmo o que responder, então acabo não dizendo nada. Uma das mulheres acomoda sua cadeira de praia dentro d’água e fica lá sentada. É realmente uma cena insólita. Logo eu e André estamos falando sobre a cor do Guaíba. André tem uma teoria segundo a qual o que nos desencoraja a tomar banho nele não são os fatos concretos (a água está poluída, há lixo e cocô por aí), mas sim a “ideia” de sujeira que seu tom naturalmente marrom nos transmite. Se fosse azul, diz André, podiam falar o que quisessem, as pessoas simplesmente contariam com a cor como garantia. “Não deixa de fazer algum sentido”, eu respondo, sorrindo. Levanto e chego mais perto da água. Ele vem atrás de mim.
- Sabe, eu nunca encostei um dedo no Guaíba, André. Moro há trinta e um anos nessa cidade e nunca encostei um dedo no Guaíba.
Me abaixo e alcanço a água. Está quente.
- Todo mundo devia fazer isso uma vez ou outra - ele diz, arregaçando a bermuda.
Em seguida, estamos os dois com os pés na água, depois com as canelas, depois com os joelhos. É quando eu falo: “Eu não gostaria que tu fosse pra São Paulo”. André pega minha mão, me puxa mais para o fundo, rindo. Olho para a água turva, que deve estar sentindo inveja desse céu de agora, e mergulho.