
(texto originalmente publicado na Zero Hora do dia 15 de janeiro de 2011)
Jorge, o músico de bar
A primeira coisa que preciso dizer é: nada deu errado em minha vida. Porque você tende a olhar para um músico de bar pensando “algo saiu errado na vida dele”. Como você, ao olhar para um violinista no metrô de Nova York, automaticamente pensaria que seu grande projeto de vida era tocar em uma orquestra sinfônica, mas que por algum motivo (alcoolismo? talento de menos?) ele está ali, em um canto subterrâneo cheio de infiltrações, e não em uma bonita sala climatizada com poltronas vermelhas. Você dificilmente vai levantar a hipótese de que talvez, quem sabe, ele nunca tenha desejado estar em uma orquestra sinfônica.
Sou músico, toco covers em bares. Aprendi violão com meu avô aos oito anos, já rodei o Estado em uma kombi, tenho casa própria e, em 2006, ganhei o troféu Melhor Cover Gaúcho de Djavan. Nesse exato momento, eu poderia estar em Capão da Canoa cantando os hits de todos os verões, vamos fugir desse lugar, baby, os bolsos cheios de dinheiro no final da noite, mas a verdade é que estou na Cidade Baixa semi deserta, tocando para seis mesas. Há uma explicação lógica para isso. Fiquei em Porto Alegre por causa de mulher. Você dirá: que burrice!, dinheiro garantido à beira-mar, e ainda por cima com todas as garotas que estão por lá, seminuas e enfeitiçadas pelo verão?
Fiquei por causa de uma mulher, cujo nome nem sei.
Ela costuma vir nesse bar, há mais ou menos dois meses. Enquanto as pessoas me ignoram e comem suas batatinhas e bebem seus chopes, a mulher misteriosa com botas de cowboy olha fixamente para mim, absorvida pela música. Outras vezes, é possível ver seus lábios acompanhando a letra com dedicação. De Rolling Stones a Lulu Santos. Mas é em Bon Jovi que nossa comunhão chega a seu clímax: ela me sorri e eu sorrio para ela, como se fôssemos os únicos no mundo a compreender a beleza de uma canção do Bon Jovi. Já fui repreendido pelo dono do bar ao adicionar esse grande cantor em meu repertório, o que fiz quase sem querer da primeira vez, e que mantive por causa dessa mulher encantadora. “Toca U2 então, ao menos todo mundo conhece”, disse o patrão. Desobedeço-o sistematicamente.
A gata de botas ainda não veio. Quero imaginá-la caminhando pela Lopo Gonçalves em direção à José do Patrocínio, ela diante das casas grafitadas no cair da noite, como se perigo não houvesse, como se crack não houvesse, como se tudo não passasse de um filme com potencial para ganhar o Festival de Sundance. Tão denso, tão marginal, tão selvagem. Mas ela não vem. O garçom está encostado na parede, a bandeja embaixo do braço. Há uma mesa de mulheres com risadas estridentes próxima de mim. Ninguém se dá conta que estou no palco. Folheio minha pasta à procura da próxima canção.
Meu desejo é arrasar a noite de todos. Tocarei Creep sem dó, fazendo com que se lembrem de seus amores desfeitos e dos não-correspondidos. Dos amores culpados. Nada deu errado em minha vida. O músico do metrô é mais feliz que o músico da orquestra, você pode ter certeza.
Mas toco Creep e sofro. O dedilhado parece feito de tendões expostos, a voz sai embargada, e não tenho pudores de fazer os agudos como acho que devem ser feitos. Fecho os olhos. É raro que eu feche os olhos nos bares, pois talvez nos bares eu esteja realmente distante daquilo que produzo, a cabeça noutra, o coração a léguas, traçando planos. Tenho sonhos como qualquer um, admito. Você também deve pensar em algo que ainda não alcançou. Desejo compôr uma grande música, um pop épico como Anoiteceu em Porto Alegre e November Rain. A Balada da Terceira Perimetral.
Quando abro os olhos, vejo que ainda estou no mesmo lugar. A mesa das mulheres segue achando graça de tudo. As outras pessoas tampouco prestam atenção em mim, esse ponto negativo que se chama música ao vivo. É então que vejo a mulher das botas de cowboy. A mão sobe lentamente e o dedo indicador seca uma lágrima que escorria pela bochecha, com tanta discrição que o gesto podia ser confundido com uma coceirinha qualquer. Olho para ela, mas sem sorrir. Faço um intervalo para fumar um cigarro lá fora.
Ao passar pelo caixa, ouço uma voz masculina.
- Que absurdo, seis pila de couvert artístico? Ainda se a gente quisesse ouvir o cara!
Quero fazer justiça, tenho a obrigação de fazer justiça e, se tiver que ser com um murro, assim será! Meu violão, minhas canções, eu trago pra reavivar uma lembrança do tempo em que tudo dava certo na sua vida, as pessoas então balbuciando junto as palavras em uma harmonia provisória, os pés por baixo das mesas marcando o ritmo, em seguida um brinde entusiasmado e a repetina necessidade de ouvir uma outra boa música que surgiu na memória. Há dias assim, perfeitos assim. Um dente quebrado é o mínimo que esse sujeito merece.
- Ei, tu aí - eu digo.
Uma mão encosta na minha. Delicada como se me deixasse ir, sem no entanto desejar que eu fosse.
- Ainda falta aquela do Bon Jovi.
Ela se chama Letícia e toca violino.
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