dromedário
Ao menos oito pessoas ficaram em Porto Alegre neste verão

(texto originalmente publicado na Zero Hora do dia 22 de janeiro de 2011)

Marina, a caçula

Ana e eu estamos saindo do supermercado. O céu está branco como o fim de um cenário. Ana carrega uma sacola cheia de coisas e eu estou carregando a caixa de ovos. Além de ser 19 centímetros mais alta do que eu, Ana já pode voltar para casa às três da madrugada e receber amigos no salão de festas sem a supervisão de um adulto. Desde que isso foi decidido em uma conferência familiar, primeiro o chão entre nós rachou, depois a rachadura se abriu em um vale tão árido como o Vale da Morte, e digamos que eu fiquei um bocado triste. Agora estamos caminhando de volta para casa em silêncio. Minha melhor amiga está em Xangri-lá e me ligou ontem para dizer que tinha comido risoto de tatuíra, e eu disse que por aqui tudo continuava igual. Passamos diante das casas que têm cara de Serra Gaúcha, pelo campo de futebol e pelo hotel com um grande pórtico de vidro. Enquanto procuro carregar os ovos com todo o cuidado, fico pensando em como seria morar em outro bairro ou em outra cidade. A grande novidade do verão é que meu pai vai sair de casa. Talvez ele decida levar uma de nós com ele.

Se meu pai fosse uma máquina, dificilmente você conseguiria ligar essa máquina sem ler um calhamaço de instruções antes. Se meu pai fosse um animal, é provável que fosse um desses animais que ninguém entende, descobertos por acaso num lago cheio de ácido sulfúrico. Ainda assim, a gente se dá relativamente bem. Desde que eu tenho 8 anos de idade, ele fala comigo como se eu tivesse 20, e eu finjo que entendo como se tivesse 35. Moramos em uma cobertura, numa rua tranquila onde demoliram quatro casas para construir um prédio. Minha mãe diz “que horror, como fazem janelas pequenas hoje em dia!”. Meu pai diz que tijolo é mais barato que janela e, se os panacas pagam 600 mil por essa porcaria, o problema é todo deles.

Ana anda sempre um passo a minha frente. Nós chegamos na esquina da Casemiro e ela olha para os dois lados e atravessa. Uma senhora cruza a rua no sentido oposto, arrastando um cachorrinho pela coleira. Gostaria de perguntar a Ana se ela ouviu a briga de ontem, mas, quanto mais o silêncio dura, mais difícil é quebrá-lo. Gostaria de perguntar se ela se deu conta que os ingredientes que estamos levando agora podem ser os ingredientes para o último bolo do último domingo em família. Ana ficou tão bonita de uns anos pra cá. As tias distantes têm razão de se impressionarem quando a veem descendo do carro.

Então há mais uma esquina para atravessar e ela diz:

- E se esse for o nosso último bolo?

Eu sorrio meio desolada e digo que estava pensando na mesmíssima coisa há um segundo. Ana passa a mão no cabelo.

- Cuida com esses ovos.

Emparelhamos a nossa caminhada. Não é um dia dos mais quentes. Agora algumas nuvens cinza se arrastam pelo céu. Poucos carros estão passando na Casemiro, e absolutamente nenhum nas ruas menores. Fico olhando para os parasitas das árvores e para as flores rosa e arredondadas que estão por tudo, depois pergunto para Ana se ela gosta daqui.

- Eu gosto. E tu?

- Também gosto.

Isso faz a gente começar a falar sobre o pai. O pai, na maioria das vezes, odeia Porto Alegre. Se por algum motivo ou outro ele vai na Padre Chagas (o que é raro), sempre volta dizendo que as pessoas se acham elegantes e endinheiradas, mas que se comportam como caipiras, olhando sem parar para quem passa, procurando reconhecer, entender, analisar, enquanto que, nos lugares verdadeiramente civilizados, ninguém dá a mínima para quem passa, seja ele o Mick Jagger ou alguém com um mamão papaia equilibrado na cabeça.

Essa é a teoria do pai. Estamos rindo um bocado dela quando chegamos na praça que se chama Gustavo Langsch, mas que algumas pessoas, sabe-se lá por que, conhecem como Praça Pôr do Sol. Colocamos a caixa de ovos sobre uma pedra e a sacola no chão. Eu sento num balanço e Ana fica de pé andando de um lado para o outro. Ana começa a falar:

- Viu que a mãe e o pai tavam falando sobre Brasília? Não quero ir pra lá de jeito nenhum.

- Nem eu. Não tem esquinas.

- Como assim?

- Sei lá, não entendo. Quando duas ruas se cruzam, sempre formam uma esquina.

Como pode não ter esquinas? Só se tem uma rua só.

Ana me dá um tapinha na cabeça e diz que tudo isso é uma bobagem.

Logo estou contando a ela sobre minha melhor amiga que me ligou ontem de Xangri-lá dizendo que tinha comido risoto de tatuíra, e eu disse que por aqui tudo continuava igual. “Tudo igual?”, Ana pergunta. Então começa a fungar e vira o rosto. Chego perto dela, coloco a mão em seu ombro e digo que vai ficar tudo bem, ela repete minha frase e ficamos num looping sem fim de tudo bem tudo bem. Tudo muito bem quando ouvirmos o estalo do forno, quando virmos a mãe com a luva acolchoada, quando queimarmos o céu da boca com o bolo de chocolate.

Recolhemos a sacola, a caixa de ovos, e voltamos para casa.

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