
(texto originalmente publicado na Zero Hora do dia 29 de janeiro de 2011)
Costumo dizer que as melhores coisas que me aconteceram depois que Clóvis morreu foi ter decidido administrar o condomínio e ter me inscrito no Coral da Terceira Idade. Quanto ao condomínio, tudo começou no dia 13 de julho de 2000, quando, pressionada e sem muita convicção, fui a única candidata à síndica na assembleia anual do edifício Jerusalém, rua Henrique Dias, bairro Bom Fim. Era a noite mais fria daquele ano. Dona Ada, contudo, insistia em manter um terço da janela aberta, nada mais que um terço e nada menos que um terço, o que, segundo ela, lhe garantia uma saúde de menina. Dona Ada tinha então 74 anos, uma ponte de safena e um filho que morava em Rondônia. Como de hábito, cedera gentilmente sua sala (um bricabraque) para a reunião, a qual, como também de hábito, contava com a participação de pouquíssimos moradores.
No edifício Jerusalém, não há salão de festas, não há porteiro, não há elevador, como não há sequer uma criança. Os moradores se dividem, basicamente, em dois grupos: aposentados, com mais de 40 anos de casa, que viram o Bom Fim morrer e renascer algumas vezes enquanto espiavam por suas janelas; universitários vindos do interior, cheios de energia, deslumbrados com a recém-adquirida independência.
Quando o telefone toca, estou no exercício de meu décimo mandato. É uma sexta-feira abafada de janeiro. O Bom Fim está imóvel, respirando por aparelhos.
- Alô?
-Oi, Maria. É a Ada.
Dona Ada tem então 84 anos, duas pontes de safena e um filho que mora na Patagônia.
- Desculpa incomodar, mas por acaso tu estás ouvindo um barulho anormal? Parece que vem do 26.
Uma vez que dona Ada tem o ouvido esquerdo comprometido e que, além disso, mora no primeiro andar, tomo como bastante improvável a possibilidade de ela ouvir algum ruído vindo do apartamento 26. No entanto, sou simpática comme il faut, dizendo que tomarei as providências necessárias.
Há um novo morador no 26. Desço as escadas e não posso negar o quanto me agrada fazer essa visita. Isso porque ainda não cruzei com esse locatário, certamente um jovem de Caçapava do Sul ou São Sepé, que no domingo à tarde toma um ônibus semi-direto para voltar a Porto Alegre, trazendo as lasanhas congeladas que a mamãe lhe preparou. Nunca é demais passar-lhes a folha de regras do condomínio, pois como são barulhentos esses estudantes que tomam nosso Bom Fim (que, como diz dona Ada, para eles é um Mau Começo). Dois antigos moradores do 26, por exemplo, fosse a hora que fosse, tinham por costume transformar a sala de estar em tatame, ou ao menos essa era a única explicação que encontramos para aquele barulho constante de corpos caindo. No supermercado, já reparei que a seção de bebidas alcoólicas aumenta monstruosamente. Enquanto isso, a feira da João Telles vai minguando. Onde estão os pastéis da feira da João Telles?
Tudo parece silencioso quando chego no segundo andar. Vou me aproximando da porta do 26, e de repente a música começa e toma conta de todo o corredor. Mas o que estou ouvindo? Não são guitarras ensurdecedoras, não são vozes afetadas, nem letras de fazer corar quem nasceu na década de quarenta. Há uma orquestra, uma melodia doce, o embalo dos meus 20 anos. Será possível? Colo o ouvido na porta. Sem dúvida o que toca é Theme from a summer place.
Pois é um alívio e tanto descobrir que não se trata de um jovem. Que um senhor respeitável, mesmo que quebre um pouquinho a regra de silêncio do condomínio, certamente o faz porque é levado por uma forte e fugaz emoção, e portanto é preciso respeitar seu desejo de reviver, ainda que parcial e artificialmente, algum instante de sua já longínqua juventude. Além do mais, contamos nos dedos os inimigos e os aliados (com o perdão pelo vocabulário bélico). Nada contra os jovens, mas é essencial, para manter o bom funcionamento do edifício Jerusalém, que o número de moradores chamados carinhosamente de “pratas da casa” seja superior ao dos estudantes que vêm e vão.
Portanto toco a campainha para conhecer o novo vizinho. É raro que um homem de minha idade ainda conserve o gosto por esses pequenos prazeres estéticos. A maioria deles se joga na frente das televisões e acabou-se, de modo que não é mentira quando dizem que as viúvas costumam ser mulheres muito ativas. Ouço que se aproxima e então a porta se abre.
- Boa noite?
É um guri imberbe, e todas as palavras, todos os discursos regulares de minha persona de síndica, se evaporam naquele momento.
- Ahn, boa noite… eu estava… a música… é Percy Faith?
- Isso! Demais, né? e dispara para dentro e volta segurando a capa de um vinil. 1960. Uma relíquia.
Dou um sorriso constrangido.
- A senhora é a síndica, certo? Maria Celeste?
- Exato.
- Sou o Tiago, prazer.
Na soleira da porta, apertamos as mãos. “Tens mais discos?”, pergunto, e Tiago faz um gesto para que eu entre, enquanto me diz como o edifício Jerusalém lhe parece amigável.
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