Tentei ler Javier Marías, ao menos unzinho, porque era meu dever ter uma opinião sobre o sujeito. Havia três ou quatro na biblioteca mais próxima e eu escolhi, de modo quase aleatório, o Mañana en la batalla piensa en mí. Então. A leitura começou bem, com um primeiro parágrafo irretocável, e assim foi indo. É claro que o sujeito sabe manejar muito bem o texto (não seria à toa a sua fama), e foi um alívio eu me deparar com esse tipo de certeza (“aí está um autor”) depois de ter lido uma sucessão de romances ruins, a título de pesquisa histórica para um novo projeto. Depois de vinte páginas, no entanto, me senti tão enredada num turbilhão de desconforto que resolvi abrir mão da leitura. Aos que não conhecem o livro, explico: é a história de um sujeito que, numa noite, vai jantar na casa de uma mulher que mal conhece; o marido dessa mulher está viajando, o filho de 2 anos vai dormir, e tudo está pronto para o mais banal ato de infidelidade. Mas, de repente, quando os dois estão na cama, a mulher começa a passar mal, agoniza e morre.
O tempo de Javier Marías é um tempo que corre lento, alongado por questionamentos e retomadas de como o narrador foi parar naquela situação. Enquanto isso, a mulher agoniza.
O fato de eu ter abandonado a leitura portanto não tem nada a ver com o literário, mas sim com um tipo de “resistência” à tristeza, ou, mais especificamente, à tensão. O mal que me fazia Javier Marías não podia ser compensado pelo benefício estético.
Estou admitindo isso porque dificilmente vejo pessoas admitindo isso.
Aliás, há uns cinco meses eu estava lendo What is the what, do Dave Eggers, e fui procurar, por alguma razão, resenhas sobre o livro. Eu estava adorando o livro, e inclusive o li em tempo recorde. Pois bem, ao final de uma das resenhas havia o comentário de um sujeito que dizia ter desistido da obra simplesmente porque não podia aguentar aquela sucessão interminável de tragédias (o livro trata da vida de um refugiado sudanês). Lembro de que, na hora, não fui capaz de reprovar o cara e partir pralgum golpe baixo do tipo “se não pode com isso, vá ver filmes do Ashton Kutcher então”: era perfeitamente compreensível que ele pudesse não aguentar toda a desgraça que o livro continha.
Ainda assim, em What is the what, mesmo quando crianças famintas no meio do nada eram devoradas por leões, logo em seguida havia algum tipo de pequena, ou mesmo mísera, alegria. Um pouco de comida, o encontro com um amigo que o protagonista dava como morto, ou mesmo a expectativa de que tudo aquilo fosse acabar.
Pessoalmente, acho que a coisa toda precisa estar balanceada, exatamente como fez Dave Eggers. Ninguém pode me acusar de Pollyana; não há surpresa quando dizem que meus livros são tristes ou melancólicos, mas acredito que há sempre um tirar-sarro-da-própria-tragédia, ou uma beleza escondida em algum troço insignificante.
É certamente por isso que sou incapaz de gostar do Anti-Cristo de Lars Von Trier.
E é também certamente por isso que o musical pop baseado em Victor Hugo, Les Misérables (vi ontem), depois de matar quase todos os personagens, termina com uma música esperançosa, um tipo de união-por-um-mundo-melhor. Funciona, e como. Mesmo que seja cantada por fantasmas.
O que me ocorreu a partir de Javier Marías