(texto que escrevi pro Outlook dessa sexta)
Nasser é dono do único restaurante legitimamente egípcio de Paris (diz). Veste-se sempre com uma esfinge ou uma pirâmide. Reconhece-nos quando entramos pela segunda vez no lugar: “Você é o Diego. Como Diego Maradona!”. Já o meu nome, bem, esse ele não lembra ao certo.
É meio de Copa do Mundo, mas é difícil dizer que isso está realmente acontecendo, a não ser pelas bandeiras nas fachadas de alguns bares, bandeiras de vários países como um varal multicolorido, e nesse caso também é difícil dizer se a multiplicidade de bandeiras deve-se às muitas nacionalidades que transitam em Paris ou se ao fracasso da seleção francesa que, naquela altura, já se desenha nitidamente.
Corrijo-me: no dia anterior, a Argélia havia arrancado um empate com a Inglaterra e isso sim foi um acontecimento, a Copa realmente pulsando na capital francesa, com buzinaço no centro e pessoas com meio corpo para fora do carro. Diante da Torre Eiffel, onde foram transmitidos os jogos, o véu que encobria a mulher argelina dos pés à cabeça era agora encoberto pela bandeira com o crescente. Mas é claro que no jogo seguinte, frente à frustração de perder para os Estados Unidos, a periferia amanhaceria com carcaças de carros queimados.
No único restaurante legitimamente egípcio de Paris, no entanto, tudo estava calmo. Pedimos que Nasser ligasse a tevê para acompanharmos Holanda x Japão, e tudo continuou calmo. Pouco tirávamos os olhos da comida, apenas sentindo o tédio emanar da voz monocórdia do narrador. Nasser ainda recolheu os pratos tirando sarro dos laranjas, que, segundo ele, eram eternos candidatos ao título, mas sempre morriam na praia. Nenhum de nós podia imaginar que, algumas semanas depois, onze carinhas de azul estariam sendo eliminados justamente por essa Holanda. Nas tabelas penduradas nas paredes dos botequins ou nas simulações dos sites esportivos, já levávamos, ou melhor, empurrávamos o Brasil até a final, supondo adversários, contentes com essa Copa de cores latinoamericanas e, nos momentos mais fortes de delírio, víamos a possibilidade de duas semi-finais sul-americanas como realmente algo que poderia acontecer.
Havíamos visto cair a França, time-médio-que-se-acha-grande, num fiascão que virou folhetim e se embolou com o Estado. As eliminações da Itália e da Inglaterra provavam que o bom futebol de seus campeonatos nacionais dependia dos jogadores Made in Latin America. E então, não mais que de repente, tudo o que restava era o Uruguai. O Uruguai. Esse pequeno país cuja existência nós gaúchos lembramos no feriado de Corpus Christi. Torci, é claro, sempre torço para os fracos, isso é o ápice da humanidade, capaz de transformar atos reprováveis (momento voleizinho de Suárez) no mais puro heroísmo. Uruguai x Gana foi mesmo uma grande narrativa, provavelmente maior que Invictus de Clint Eastwood.
No Twitter, meus amigos gaúchos enviavam uma enxurrada de mensagens simpáticas à Celeste. Tudo não passou no fundo de uma grande piada interna (uma de suas versões era de que o Uruguai seria o Grêmio na Copa). Aliás, essa foi a primeira Copa do Mundo do Twitter, e portanto da piada interna, que acabou por atingir níveis internacionais com a campanha Cala a Boca, Galvão. Foi o Brasil enganando o mundo, enquanto, quesito futebol, enganava a si mesmo.
No único restaurante legitimamente egípcio de Paris, eu agora me despedia de Nasser, cujo país nem sequer estava na Copa (fora eliminado pela Argélia, em outro ato de bravura futebolística). Entre comentários sobre culinária e vida acadêmica, eu e o egípcio concordamos: seria Brasil e Argentina na final. Ainda não voltei ao restaurante.
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