dromedário
Sobre o ipad

Seis meses atrás, entre duas estantes de uma megalivraria, avisto o e-reader da Sony em demonstração, imaculado sob um pilar de cartolina. Em sua volta, as pessoas transitam como se ali não houvesse revolução nenhuma, preocupadas somente com seus milenares livros de papel. Também me encaixo no grupo dos descrentes, mas, com uma vontade descomunal de estar errada, me aproximo e começo a mexer no pequeno aparelho. Cinco minutos depois, tenho apenas uma certeza: a de que os livros demorarão a desaparecer.
Assim como o Kindle e outros gadgets do gênero, o Sony Reader lembra minha agenda eletrônica de 1995. Acinzentado, pouco convidativo, com um potencial enorme para entrar nas categorias das invenções que se tornam obsoletas em um piscar de olhos (Betamax e Laserdisc seriam seus parentes mais próximos). Na época em que o mundo inteiro se aplica em cuidadosos projetos gráficos, os monocromáticos e-readers me parecem fazer bem pouco sentido. Um equivalente à volta da televisão em preto e branco.
Alguns meses depois, na mesma loja, meia dúzia dos recém lançados iPads atraem uma fila de curiosos. E lá estou eu, pronta para também deixar as marcas engorduradas de meus dedos na tela multi-touch. O contato inicial, contudo, passa longe do amor imediato. Não seria o iPad simplesmente um notebook sem teclado, tornando meio hercúlea a digitação de qualquer texto maior que um tweet? Não seria o iPad simplesmente um iPhone com gigantismo? O preço também parece desanimador: a partir de 499 euros. Naquele dia, vou para casa achando que um Macbook e um iPod Touch já são Apple suficiente na minha vida. Mas não esqueço o novo gadget. Pesquiso opiniões, que parecem mais inflamadas do que nunca, embora no fundo mascarem sempre a mesma polarização: de um lado, há os brutos da informática, os formatadores de computador, esses que sentem saudades das linhas de comando digitadas no DOS, e que portanto odeiam as firulas de Steve Jobs; de outro, pessoas que não querem se incomodar com computadores, mas que gostam de tecnologia e  têm uma quedinha por coisas bonitas (nunca vi alguém trocar a Microsoft pela Apple e acabar voltando atrás. A relação com a maçã mordida é, tal como para Adão e Eva, irreversível).
Acabei comprando o iPad. No quesito leitura, é mesmo imbatível: há muitos jornais e revistas já com sua versão para o aparelho, que mantém o visual da publicação impressa, o que torna a leitura agradabilíssima. Você aproxima, afasta e folheia com simples toques na tela. Tudo, é claro, passa pelo intermédio da Apple Store, mas os preços costumam ser bem justos. De qualquer forma, valem o prazer de ler, onde quer que você esteja, o Le Monde do dia, a última Rolling Stone americana, ou uma rebuscada revista espanhola de arquitetura, isso sem contar as histórias em quadrinhos (pena que eu deteste super-heróis e que ainda não haja tantas graphic novels disponíveis).
A publicação para iPad mais comentada nos últimos meses foi sem dúvida a revista Wired. Diferente da maioria, ela não é apenas uma transposição do meio impresso para o eletrônico, mas uma mescla de diagramação standard com recursos de áudio e vídeo. Acredito que essa mistura deve se tornar uma tendência. Aliás, outro dia li John Makinson, CEO da conceituada editora Penguin, comentando que é possível  oferecer uma boa dose de “material extra” junto com o livro digital, como informações históricas e trabalhos críticos sobre a obra. Makinson provavelmente estava pensando em leitores digitais ordinários quando afirmou tal coisa. No caso do iPad, impossível não pensar e se entusiasmar com a possibilidade de extras de todas as espécies. Entrevistas, fotos, fragmentos de manuscritos, poemas com chiadinho lidos em 1913. Aguardo ansiosamente.

(publicado originalmente no jornal Brasil Econômico)

  1. carolbensimon posted this